O associativismo desportivo, entendido como organização de cidadãos que, sem fins lucrativos, promove a prática desportiva tem, no nosso país colectividades centenárias (Associação Naval de Lisboa, 150 anos, Ginásio Clube Figueirense, 111 anos, como exemplos), que conseguiram esta longevidade à custa do trabalho voluntário de muitos dos seus associados, os quais tiveram uma acção de indiscutível importância social e pública ao proporcionarem a milhares de pessoas os benefícios da prática de um desporto.
Na definição do Conselho da Europa, o trabalho voluntário desportivo é caracterizado por uma actividade não remunerada que serve a promoção dos valores do Desporto, que se realiza em benefício de outras pessoas e organizações, e fora do horário normal do trabalho profissional.
Para o voluntário, os benefícios da sua actividade traduzem-se em proveitos pessoais intangíveis, como assistir em lugares de honra a cerimónias oficiais, ou ter ganhos sociais que elevem o seu amor-próprio, ou ainda o reconhecimento público da sua actividade.
Todos sabemos que o trabalho do voluntário no desporto representa um valor incalculável na economia social, que significa anos e anos de trabalho não remunerado.
Para se ter uma ideia da importância deste trabalho benévolo dado à sociedade por todos os agentes envolvidos no desporto, imaginemos, e isto ´é só no campo das hipóteses, que todos estes benévolos cessavam simultaneamente a sua actividade e o Estado tivesse de assumir as funções desempenhadas por estes, suportando a totalidade dos custos daí resultantes.
Aí, sim, teríamos uma noção mais rigorosa da magnitude do contributo destes voluntários à sociedade e ao bem-estar de todos.
Focalizando – nos, agora, no nosso país, constatamos que a oferta de trabalho voluntário para as actividades desportivas é insuficiente face às necessidades sempre crescentes dos clubes, talvez como resultado da participação cívica dos cidadãos na actividade política e sindical, do envelhecimento da população e do elevado número de desempregados. Sem dúvida que tudo isto tem contribuído para o abandono precoce da prática desportiva e para a diminuição do número de voluntários nos clubes.
Daí que considere importante o papel que os jovens possam desempenhar, nesta conjuntura, para inverter este estado de coisas.
Se é certo que o presente é uma consequência do passado, não é menos verdade que o futuro será uma consequência do que fizermos hoje.
Todas as gerações tiveram, nas suas épocas de juventude, os seus problemas e, para os resolver, ultrapassaram dificuldades. Os jovens de hoje não são excepção.
Pessoalmente, tenho confiança no futuro e justifico este meu optimismo.
Assisti, no Verão passado, e durante o período dos incêndios, ao trabalho solidário de muitos jovens, combatendo as chamas, dia e noite, numa época de férias onde a oferta de diversões atinge o auge do ano.
E, no desporto, também os jovens de hoje conseguem pertencer à mesma equipa, que luta pelos mesmos objectivos, e isto apesar de estes mesmos jovens serem concorrentes ao mesmo emprego, ou até à mesma vaga para a entrada num curso superior, muitas vezes separados por uma décima.
O empreendorismo, a produtividade no trabalho, o reconhecimento internacional nas mais diversas áreas, fazem-me admirar a geração actual e recordar aos saudosistas que dizem “ no meu tempo é que era...” que o sucesso, em todas as épocas, significou dificuldades vencidas, conflitos sanados e um permanente combate.
Por todas estas razões, tendo em conta o que já anteriormente referi sobre o escasso número de praticantes desportivos da nossa população, a dificuldade em aumentar o número de voluntários, e reconhecendo que a actividade física e o desporto estão, felizmente, entre as primeiras prioridades dos mais jovens na ocupação da sua vida não académica, entendo que é de incentivar a população juvenil, a participar no seu próprio processo de desenvolvimento desportivo, orientando os seus projectos desportivos para a organização e ocupação dos tempos livres, privilegiando actividades que, para o seu sucesso, tenham conteúdos simples e levem à participação efectiva em todos os níveis de intervenção, para isso responsabilizando – os pelo desempenho de todas as tarefas que lhes forem atribuídas.
Mas para que estes projectos do associativismo juvenil tenham êxito, isto é, permitam aos praticantes que neles participem a aquisição de hábitos de vida desportiva e contribuam para uma motivação continuada no movimento associativo, há que facilitar aspectos burocráticos (licenças, inscrições, inspecções médicas, etc), pois o funcionamento das estruturas dos clubes, neste domínio, impede uma participação generalizada.
Antes de terminar, gostaria de lembrar que o Estado reconhece nos clubes desportivos um dos mais importantes operadores da política desportiva e, dado que, alguns deles, possuem o estatuto de utilidade pública, isto quer dizer que a sua acção vai muito mais para além do interesse dos seus próprios associados.
O direito ao desporto está intimamente ligado ao associativismo desportivo e, para o desenvolvimento deste, os clubes têm um papel fulcral junto dos mais jovens, estimulando o aproveitamento das suas capacidades criativas e de cooperação na prática desportiva, com um alcance que ultrapasse a mera realização de actividades, quer do Desporto de Recreação, quer do Desporto de Rendimento, podendo constituir um elemento de inegável valor para impulsionar de forma decisiva e duradoura o desenvolvimento do nosso desporto.
Por acreditar nisto, lembrei – me do provérbio “ de pequenino se torce o pepino”.
F.E.