Criticamente, mas, por regra, por ocasião dos finais de época desportiva, vem à primeira página da informação a decantada questão dos salários em atraso no futebol.
Neste particular os comentadores habituais e os dirigentes habilidosos avançam duas máximas que, por sistemática repetição, passam a verdade absoluta:
- Que isto só em Portugal! – dizem.
- Que o Estado tem de intervir! – clamam.
São estas “verdades” que pretendo demonstrar com o presente comentário.
A primeira delas é absolutamente falsa já que, infeliz e lamentavelmente, a situação dos salários em atraso no futebol é chaga social sem o exclusivo nacional.
Basta recordar que no passado fim de semana os jogadores do Boavista ameaçaram com greve ao jogo com o Nacional, ao mesmo tempo que aqui ao lado os jogadores do Levante da 1ª Liga espanhola faziam exactamente o mesmo pelos mesmíssimas razões dos salários em atraso.
A segunda máxima tem a ver com o hábito bem português de afirmar o liberalismo puro e duro, para à primeira dificuldade correr para debaixo do braço protector do Estado!
Refere-se quanto a este aspecto, que ainda há poucos anos um presidente de uma grande bola lusa levou a um ex-Secretário de Estado do Desporto um DVD de um suposto golo não assinalado pelo árbitro, seguramente para que aquele membro do governo assinalasse o golo e rectificasse o resultado…!!
Que pode, então, o Governo fazer, ou o que deve fazer, em matéria de salários em atraso no futebol?
Quero crer que um governo com preocupação sociais fará o que faz nas outras áreas da actividade económica.
A verdade, porém, é que há salários em atraso nas empresas…
A verdade, porém, é que há empresas que fecham…
A verdade, porém, é que há multinacionais, favorecidas com incentivos vários e facilidades fiscais, que encerram ou se deslocalizam…
E a verdade é que jamais vi a Inspecção do Trabalho (IDICT) intervir nos clubes de futebol, sendo que neste plano, jus laboral, o Estado pode e deve intervir.
Já quanto à acção da Liga nesta manteria, tenho as mais sinceras dúvidas pois que não estou a ver esta associação patronal (como não vejo a CIP ou a CCP) a exigir garantias bancárias para salvaguarda dos salários dos jogadores/trabalhadores…
Quando muito a Liga poderia determinar a impossibilidade de inscrição nos campeonatos aos clubes com salários em atraso – só que se assim acontecer prevejo que a prazo não haja número suficiente de clubes para integrar os campeonatos (se hoje são 13 os clubes faltosos!!)
Concluindo, a chaga social dos salários em atraso vai prosseguir, e temo que agravar-se, seja na actividade económica em geral, seja no futebol.
Claro que outros prosseguirão de DVD em riste e mais preocupados em assacar culpas nos árbitros...
JG