Agosto de 1967, Piscina-Praia, Festival nocturno de confraternização de antigos nadadores do Ginásio.As notícias sobre resultados de controlo anti-doping positivos em atletas profissionais são frequentes e fazem a delícia dos media. A impressão disseminada no público é que o doping representa um fenómeno imanente ao desporto de elite e a que nenhum atleta pode escapar se desejar pertencer a essa mesma elite. Olhando com um pouco mais de atenção, reparamos que um dado que falta sempre, seja nos órgãos de comunicação, seja nos relatórios da Agência Mundial Antidopagem (AMA) é precisamente a prevalência de violação das regras no seio da população mundial dos atletas de elevado rendimento.
Tendo em conta o relatório produzido pela AMA (http://www.wada-ama.org) após os Jogos Olímpicos de Pequim, verifica-se que foram analisadas 5000 amostras de urina e que 10 deram resultados positivos. Durante o ano de 2007, a AMA levou a cabo 223898 testes, com uma percentagem de resultados positivos de 1, 97. De acordo com estes dados, o recurso ao doping seria extremamente raro no meio dos atletas de elite, com uma taxa de prevalência inferior a 2%. Poderíamos pois respirar de alívio e censurar o alarmismo sobre um problema que afinal, não é assim tão problemático.
Mas será que o sistema de controlo é assim tão eficaz? Tendo em conta que Marion Jones, que cumpre pena por doping, nunca acusou resultados positivos, que o ciclista Riccardo Ricco foi controlado 10 vezes durante a Volta à França de 2008 e que acusou 2 testes positivos quando, segundo o próprio atleta declarou à Velonews, todos os testes deveriam ter resultados positivos, colocam-se dúvidas pertinentes sobre a metodologia de controlo, até mesmo sobre a agenda secreta do controlo.
Ao mesmo tempo, estudos realizados com atletas não profissionais elevam a taxa de prevalência de doping para mais de 30% (Yesalis & Bahrke, 2000).
Incontornável para atletas e treinadores é a nebulosa de influências, por vezes contraditórias, que modelam a sua conduta. Se os atletas competem pelo sucesso, o público dos estádios e as audiências televisivas desejam espectáculo e drama, emocionalmente potenciados pelos media até limites inconcebíveis mas, ao mesmo tempo, ancorados em difusos enquadramentos morais. Os patrocinadores querem heróis desportivos que ganhem competições de forma “honesta”, abandonando rapidamente o apoio quando surgem escândalos (os exemplos abundam e a recente reunião da Federação Internacional de Rugby, que afirma como prioridade a promoção de uma imagem “limpa” é bem a expressão dessa preocupação das organizações com a eventual fuga dos suportes financeiros).
Por último os políticos, que financiam o desporto de elite por razões identitárias e apoiam igualmente, por vias legais e económicas, a luta anti-doping.
Citando o sociólogo britânico Ellis Cashmore, no seu livro Making Sense of Sports, “nós, público, não queremos que eles (atletas) se comportem como pessoas educadas, queremos emoção, espectáculo, um pouco de sangue de vez em quando.”
CG