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A questão tabágica

Vimos dos tempos em que a “imagem cultural” do homem urbano era materializada num “cliché” mais ou menos imitativo dos que tinham a marca holiodesca, ou seja com um cigarro fumegante, entre os dedos da mão direita.

Este gesto, repetido em milhares de fotos de mancebos que aspiravam a um certo estatuto social, fizeram parte do estilo de uma juventude que tinha como seus ídolos ainda não os jogadores de futebol, mas sim as vedetas do cinema ou teatro. Sim, porque nessa época, qualquer casa de espectáculos, em Lisboa ou na chamada província, enchia-se com um público ávido de se deliciar com a “sétima arte” ou com os que ao vivo davam expressão à “arte de Talma”.

E se recorremos a estes eufemismos, não é por uma questão de mero estilo literário, mas sim para tentar dar uma ideia do modo como vivia a juventude de uma época em que reinava a “política dos apolíticos”.

Porém, alguns desses jovens também viveram depois as agitações trazidas pelo pensamento que dizia que é “proibido proibir” e agora, quando o ambiente outoniço da vida já se começa a fazer sentir, são confrontados com uns tantos “fundamentalismos”, nomeadamente na questão tabágica.

Glosando um reputado escritor também poderíamos dizer que “um ex-fumador confessa-se”, para salientar que ao fazer a opção de abandonar o tabaco não foi como consequência de qualquer imposição, mas sim como atitude ligada ao livre arbítrio que lhe está cometido.

Podem-se invocar uma tantas razões, a favor ou contra, mas como entendemos que não há fundamentalismos bons e maus, somos, visceralmente, contra a forma como se está a tentar restringir os direitos dos fumadores porque, passe a ironia, cada um tem direito a intoxicar-se como bem entender.

De qualquer modo, as restrições impostas está a criar outras “imagens culturais” numa demonstração de que a vida funciona por círculos. Um exemplo: começa a ser vulgar em determinados serviços ( públicos ou privados) ver os trabalhadores “tabaquear a questão” na rua, normalmente, junto à porta da entrada, mas em vez de um cigarro fumam dois ou mais, para compensar a abstinência interna.

Em resumo: noutros tempos, nos intervalos das tarefas profissionais fumava-se um cigarro, mas agora, o serviço vai sendo feito nos intervalos das saídas…para o cigarro.

A V
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