No ano que precede os Jogos Olímpicos disputam-se a maioria das competições que qualificam os atletas para este evento, restando somente, nos meses que o antecedem, a “repescagem” dos últimos lugares de apuramento, a qual representa uma pequena percentagem daqueles que podem ainda integrar o grupo dos 10.000 que estarão em Pequim 2008.
Para estes Jogos Portugal colocou a fasquia bem alta, quando publicamente deu a conhecer os objectivos, no decorrer da cerimónia de celebração dos contratos-programa entre o Comité Olímpico de Portugal e as federações desportivas: presença de 18 modalidades, conquista de cinco medalhas e de 12 diplomas.
Decorrido que está o período entre Janeiro de 2005 (data dos contratos atrás referidos) e Outubro de 2007, as prestações desportivas que já tiveram lugar perspectivam uma boa representação.
Devemos ainda estar mais satisfeitos se, aos atletas que já se qualificaram para Pequim, acrescentarmos o excelente comportamento das selecções nacionais de Basquetebol e de Râguebi, significando este conjunto de resultados que o desporto português, na hierarquia internacional, subiu uns lugares.
Do meu ponto de vista, isto reflecte:
- uma melhoria no relacionamento entre dirigentes e técnicos na definição dos objectivos
- uma melhoria no domínio do planeamento das actividades
- uma melhoria do nível global de todo o processo de formação e preparação desportiva
E já agora vem a propósito referir alguns comentários e análises às prestações das selecções de Basquetebol e de Râguebi, pois fazem lembrar as “vitórias morais” do futebol nacional antes de 1966, nomeadamente no que se refere à falta de meios e ao amadorismo dos atletas.
Julgo que isto se deve ao desconhecimento, por parte desses comentadores e analistas, de que o alto rendimento está somente reservado a indivíduos com determinadas aptidões, e que a análise das suas prestações não se pode resumir a um momento, mas sim ao percurso da sua vida desportiva.
Sobre o amadorismo dos atletas recordo de me encontrar, no final da década de 80, com um grupo de jovens no estágio que antecedia a participação num Campeonato do Mundo de Sub-23, e de partilhar as instalações do Complexo Desportivo de Lamego, durante uma semana, com os profissionais de futebol de um dos chamados “três grandes”.
Estes futebolistas (profissionais) ficaram admirados por os jovens que me acompanhavam fazerem treinos bi - diários e, durante os restantes dez meses do ano, estarem sujeitos a um regime de trabalho superior ao do deles. Para terem sucesso, e como eram estudantes, treinavam muitas vezes antes das aulas, acordando, para o efeito, às cinco e meia da manhã, pois, só deste modo, conseguiam, concomitantemente, participar nas suas actividades académicas e cumprir o programa de treino diário.
É oportuno, já agora, esclarecer, que na nossa legislação, o diploma que enquadra o ordenamento jurídico – desportivo do atleta profissional define que este é aquele que exerce a actividade desportiva como “profissão exclusiva ou principal”.
Ora, no exemplo citado, que não é único!, estes jovens (amadores) treinavam mais do que os profissionais, e com isto quero dizer que um assunto desta natureza não pode ser abordado com esta ligeireza, já que os resultados no alto rendimento não se resumem aos salários, por muito chorudos que eles sejam.
Os próximos tempos serão decisivos e, em relação aos atletas que não se qualifiquem, há que avaliar:
- a existência das aptidões mínimas que permitam alcançar esse objectivo
- a conformidade dos resultados alcançados e da preparação realizada com um processo de longo prazo, perspectivado em Jogos futuros.
Dito isto, e seja qual for a óptica do avaliador, é bom lembrar a todos – atletas, técnicos, dirigentes e público –, que a prática desportiva do alto rendimento tem também valores formativos e educativos que se devem preservar sempre, pois, acima de tudo, os atletas são Pessoas!, e a competição jamais deixará de ser a característica da relação humana no desporto.
Se procedermos assim, os atletas constatarão que o seu esforço não foi feito em vão e que nunca deixaremos de lhes estar reconhecidos.
F.E.