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MEXENDO NO LIXO: Este é longo, desculpem lá.

Terça-feira, Setembro 26, 2006
No Sábado, em Alvalade, houve um golo marcado com a mão. Apesar de o árbitro o validar, apesar de Ronny, o marcador, negar tê-lo marcado com a mão, a verdade é que o golo é irregular.
É uma boa analogia para o que se passa nos bastidores do futebol português. Os tribunais consideram as escutas inválidas, a lei pode ser inconstitucional, os intervenientes podem dizer que é uma “situação normal”. Mas a verdade é que as conversas tiveram lugar e que são criminosas.
Apesar disto se passar no futebol, não é nos jornais desportivos que lemos sobre estas coisas, é noutras publicações. Por isso, num inquérito para o jornal Record, quando me perguntaram “o que gostaria de ler amanhã no Record?”, eu respondi “uma notícia qualquer sobre escutas e corrupção, que não seja primeiro dada nos jornais generalistas.”
Passados alguns dias, o director do Record, Alexandre Pais, escreveu isto: “José Diogo Quintela disse, nestas colunas, que gostaria de ler amanhã no Record "uma notícia qualquer sobre escutas e corrupção que não seja primeiro dada nos jornais generalistas". Trata-se de um desejo difícil de concretizar, pois quando o futebol perder de todo a credibilidade - traído por aqueles a quem dá de comer - aos generalistas não faltarão outros temas para exibir barba rija. Mas, morto o futebol, o Record perderá a razão de existir. Que mexam no lixo que os tribunais largaram. Nós pertencemos a um circo que vive de emoções - de golos e de erros, títulos e de frustrações. E não temos vergonha disso.”

Confesso-me espantado. Por duas razões: primeiro, por dar mais importância a esta resposta do que à que eu dou à pergunta “Morangos com Açúcar ou Floribella”, de superior interesse. Segundo, pela assunção sincera da conivência da imprensa desportiva com as burlas do futebol português.
Há conversas (que ninguém desmentiu) em que se fala de comprar árbitros para influenciar resultados. De jogos de futebol. Que é um desporto. Coberto pelos jornais desportivos. Não totalmente, digo eu.
E Alexandre Pais vem dizer, com desfaçatez, que não vai mexer no “lixo que os tribunais largaram”. Acho que não sabe que, ao não querer falar nisso, Alexandre Pais e os outros jornais desportivos estão, no mínimo, a forrar o caixote onde está esse lixo. É que os tribunais podem ter largado o lixo, mas não foram os tribunais que o fizeram. Foram aqueles que, pelos vistos, “dão de comer” aos jornais desportivos. Curiosa expressão. Julgava que quem dava de comer eram quem pagava, i.e. os leitores.
Pelos vistos, quem dá de comer são os dirigentes a quem os jornalistas prestam vassalagem. Aliás, exagero. Não são os jornalistas. Quem, conscientemente, sonega informação aos leitores, não é um jornalista. É, porventura, um divulgador da actividade desportiva. Faz agendas e dá resultados, vá lá. E a “morte do futebol”, em vez de ser evitada por este silêncio, é ajudada.
Gosto especialmente quando Alexandre Pais diz “Nós pertencemos a um circo que vive de emoções – de golos e de erros, títulos e de frustrações.” Para já, porque é uma afirmação peca por defeito. É preciso acrescentar que há emoções que são falsas, porque há golos roubados, erros combinados, títulos pagos e frustrações que não têm que ver com o que se passa no campo, mas sim com o que se passa num restaurante qualquer de beira de estrada, onde a um fiscal de linha é prometida uma meretriz e um telemóvel com 3G, novinho em folha.
Depois, gosto da frase porque parece estar a insinuar que quem silencia, fá-lo porque gosta de futebol. Como se nós, os tagarelas e curiosos, não gostássemos. Não só isso, estamos a contribuir para a falada “morte do futebol”. E, como tal, para o fim da razão do Record existir. Mas, tão facilmente como Alexandre Pais diz isto, eu inverto o argumento: quem não gosta de futebol e contribui para a sua morte é quem silencia, e, se é para prestar esse serviço, se calhar não faz sentido o Record existir. Quem diz Record, diz qualquer um dos outros dois diários desportivos que teimam em fingir que nada passa.
Alexandre Pais finaliza com “e não temos vergonha disso”. É de louvar a admissão, mas é redundante. Já se tinha percebido que não têm vergonha. Mas não são os únicos.

PS – para mais informação, leiam este texto da Leonor Pinhão, n’A Bola. A parte mais sumarenta é esta:"Há 20 anos, ou talvez mais, dois jogos decisivos da derradeira jornada de uma série qualquer dos campeonatos distritais de futebol terminaram com resultados impensáveis. Qualquer coisa como 18-6, um, e 21-7, o outro.
Na altura eu era jornalista de A BOLA. Todos os domingos recebia as chamadas telefónicas dos correspondentes locais e tomava nota dos jogos e das classificações. O despropósito dos números dos golos daqueles dois jogos motivou-me a querer saber porquê e como e quem.
A curiosidade profissional foi rapidamente satisfeita. Os dois clubes supergoleadores de terras vizinhas disputavam entre si a subida de escalão e estavam igualados em pontos a uma jornada do fim. A temporada iria resolver-se pela diferença de golos. E até nesse pormenor as duas equipas rivais tinham um score idêntico.
E todos tiveram a mesma ideia. Os guarda-redes das equipas adversárias foram amaciados, os árbitros foram sensibilizados, alguns jogadores das equipas pretendentes à subida rubricaram exibições não menos estranhas e marcaram golos na própria baliza. Os dois resultados avolumaram-se até ao ponto da demência. E porquê? Porque cada equipa tinha um espião no campo do adversário. A missão do espião era correr para o telefone do café mais próximo sempre que houvesse um golo e informar os da sua cor da marcha do marcador.Nunca dois espiões correram tanto e telefonaram tanto. E, assim, dentro das quatro linhas os jogadores iam sabendo como paravam as modas e os golos que tinham de deixar entrar, uns, e que tinham de marcar, outros.A história tinha pinceladas neo-realistas. Cheguei a falar com algumas testemunhas dos acontecimentos e houve uma (torcia pelo clube que acabou por ficar em segundo lugar e não subir) que me garantiu ter a GNR ajudado o clube adversário ao disponibilizar ao espião os meios sofisticados de comunicação telefónica da sua carrinha destacada para manter a segurança pública do espectáculo.
Recolhida esta primeira dose de informação dirigi-me ao mítico chefe de redacção de A BOLA, Vítor Santos, e, contando o que já sabia, pedi autorização para me deslocar até às duas localidades em questão para fazer uma reportagem.
— Para fazer o quê? — perguntou o meu chefe.
— Uma reportagem. Falar com os dirigentes, com os jogadores, com os espectadores…
— Pois, pois…
— Ia eu e um fotógrafo. É uma grande história, chefe! — insisti num entusiasmo pueril. Mas não tive sorte nenhuma.
— Sabes, rapariga, eu acho melhor não tocar nisso — disse-me o Vítor Santos.
Olhou-me nos olhos, inclinou-se para trás na sua cadeira de chefe e cruzou as mãos em cima da barriga.
— Não tocar nisso?
— Nem ao de leve. Essas coisas existem, sempre hão-de existir mas torná-las públicas faz mal ao futebol e nós, jornalistas, não podemos fazer mal ao futebol."

Zé Diogo Quintela in "Gato Fedorento"

Futebol e sentimento

Sábado, Setembro 23, 2006
Talvez o tempo diminua o rigor dos factos, o que não releva no insólito do caso.
Da memória retiro o episódio do carteiro Gonçalves que foi convencido, de véspera, a defender as redes da baliza do Ginásio, apesar de já estar retirado das lides desportivas. Levámos 8 ou 9 a zero, com um keeper quase imóvel como uma sentinela leal, só esboçando o gesto de abrir os braços sobre a cabeça, por cada remate certeiro do adversário. Perante a minha infantil frustração clubística , meu Pai tentou consolar-me, informando-me que a ausência súbita do guarda-redes titular e a doença do suplente, justificavam a colocação do Gonçalves a meio das redes do Ginásio. De luvas e joelheiras, mas apenas isso. Depois de alguns minutos de jogo, todo o público percebeu que cada pontapé na bola que ultrapassava a esforçada defesa, correspondia a golo certo! Foram 8 ou 9, tantos quantos os remates com direcção adequada.
Aguentámos firmes ( o Gonçalves, coitado, mais do que todos...) os penosos 90 minutos deste incrível jogo de futebol no pelado José Bento Pessoa, nos anos 60.
De regresso a casa, meu Pai disse-me que o importante era participar, que o desporto era isso mesmo, mau grado aquele medonho resultado. Desconfio que nas suas palavras ressaltava mais o carinho por mim, mais do que a verdade do sentimento. E eu, se calhar, fingi que acreditei na sinceridade de cada palavra que, com ternura, sublinhava um afago no meu cabelo.
Pedro Melo Biscaia

Remada no charco

Quinta-feira, Setembro 21, 2006
O charco é, seguramente, a situação criada pelo Director Técnico Nacional, com o beneplácito da Direcção de F. P. Remo, na equipa nacional de remo envolvida na preparação para o Campeonato do Mundo 2007 e apuramento olímpico.

Na verdade, com cobertura da direcção federativa, aquele Director Técnico, José Santos, unilateralmente e à margem de razões desportivas, mas contra os regulamentos disciplinares federativos “decidiu suspender com carácter definitivo da Equipa Nacional de Remo, os atletas Carlos Freitas, Ricardo Paula, Paulo Quesado e Ricardo Santos que constituíam o 4 x sénior masculino”.

Uma tal decisão configura, sem margem para dúvidas, a aplicação de uma penalização disciplinar (não prevista no Regulamento Disciplinar e sem legitimidade do seu autor!) decidida, unilateral e prepotentemente, por um Director Técnico que, sempre subjectivamente, considera que aqueles atletas “ tiveram comportamentos inadequados”, opina que “ promoveram a instabilidade”, acha que “ manifestaram atitudes de pretensiosismo” e conclui que “ sujeitaram os treinadores a uma constante ansiedade”.

Todas estas opiniões, sensações, interpretações e conclusões pessoalíssimas do Sr. Director Técnico Nacional não foram precedidas de qualquer processo de inquérito, processo disciplinar prévio que as sustentassem.

O Sr. Director Técnico acha, entende, sente, cheira (a esturro!) e pune!

O Sr. Director Técnico rasga os regulamentos da modalidade e, qual tiranete, sem mais, pune!

O Sr. Director Técnico passa por cima do Conselho Disciplinar e do Conselho Jurisdicional da F. P. Remo, e qual monarca absoluto, pune!

O Sr. Director Técnico demonstra com este seu comportamento a mais acabada incompetência para o exercício daquele cargo (que impõe equilíbrio, ponderação e bom senso!) sendo que a Direcção da F. P. Remo ao sufragar aquela conduta atolou-se no pântano da ilegalidade do seu Director Técnico.

O Ginásio Clube Figueirense e os atletas individualmente, não se conformando com a ilegalidade e reagindo no quadro regulamentar estão a dar a

REMADA NO CHARCO !

JG

Parabéns, Orlando!

Segunda-feira, Setembro 18, 2006
Cinquenta e cinco anos depois, a selecção nacional de Basquetebol vai voltar a um Campeonato da Europa,o Eurobasket 07, a realizar em Espanha no próximo verão.

Razão para felicitarmos o nosso colega deste Blogue, Orlando Simões, o qual muito contribuiu para este êxito, na qualidade de treinador adjunto da equipa que venceu a fase de apuramento.

Mas também para salientarmos dois figueirenses ligados a estas participações:

Em 1951, o saudoso João Morgado, excepcional praticante de Basquetebol e Futebol, então na Académica de Coimbra,mas que posteriormente também passou pelo Ginásio.

Agora, o capitão da equipa, José Costa, este ano a representar mais uma vez o nosso clube.


Zás-Trás

Formação ética no desporto

Domingo, Setembro 17, 2006

Vários estudos internacionais mas também nacionais têm mostrado que os jovens desportistas acreditam que o sucesso desportivo está mais facilitado quando as regras sociais e éticas são adulteradas. Estes estudos têm mostrado também que os jovens (entre os 13 e os 18 anos) consideram que os árbitros erram propositadamente, e que é correcto tentar enganar o árbitro.


Podemos questionar o papel da escola na formação desportiva dos seus alunos, ou os clubes e associações desportivas na formação dos seus jovens desportistas.

Terão falhado nos seus objectivos?

Terão seguido as melhores estratégias?


Poder-se-á afirmar que tanto a escola como os clubes e associações desportivas não têm dado a importância devida à formação social e ética dos seus jovens. Acreditamos que isto seja verdade. Mas não é justo nos dias de hoje, em que a informação é cada vez maior em quantidade e rapidez de circulação, responsabilizar apenas uma parte dos intervenientes do processo desportivo.


Todos os dias somos confrontados com inéditas tentativas de superar o adversário sem ser no terreno da competição: ele é o doping, ele é a interpretação do regulamento conforme melhor conveniência, ele é o tráfico de influências para conseguir uma posição mais privilegiada.


Estes comportamentos associados ao sucesso desportivo são facilmente assimiláveis pelos jovens em formação.

Significa isto que o desporto deforma os nossos jovens?

De modo nenhum.

Esta reflexão e autocrítica determinam uma maior atenção e vigilância. Põe-nos alerta sobre alguns perigos que espreitam interesseiramente o desporto.

Os nossos princípios éticos e morais devem ser sólidos e consistentes e imunes a todo o tipo de interesses. Só deste modo é possível acreditar no valor intrínseco do desporto como meio ímpar na formação do jovem como cidadão livre, culto e autónomo.

EP

As cinco Posições Mateus

Segunda-feira, Setembro 11, 2006
Já quase tudo foi escrito (nem sempre bem!) e dito (mal!) sobre o “Caso Mateus”.

Repito que qualquer que seja o ocaso do caso, desde o extremar da solução jurisdicional nacional até à europeia ou ficando pela desistência com negociação económica, a verdade é que são dignas de registo algumas posições “jurídico-desportivas” de Mateus.

Posição Um: a institucional, conservadora (do sistema) reaccionária (por reacção à novidade e à actualização de regimes) da FIFA e FPF e respectivas instâncias jurisdicionais – tudo o que é conexo com o factor desportivo reveste a qualidade do “estritamente desportivo” com as respectivas consequências, Gil Vicente penalizado!

Posição Dois: a revolucionária (apenas por reacção àquela primeira) que defende que tudo o que não seja “estritamente desportivo”, ainda que conexo, é sufragável pela jurisdição comum e deve inscrever-se no quadro da jurisdição comunitária e nacional.

Posição Três: a “passa culpas”, que é a dos sucessivos governos que com a primeira Lei de Bases do Desporto criaram o “sistema” e hoje se procuram pôr à margem de um conflito FPF/Liga, que criaram… não só criaram “o sistema e como o alimentam sempre que há êxito (Laurentino Dias, José Sócrates e Cavaco Silva estiveram na Alemanha 2006, ou foi impressão minha?)

Posição Quatro: a oportunista que é, claramente a do Belenenses, injusto beneficiário do caso depois de indiscutida derrota desportiva.

Posição Cinco: a do bom senso! É definitivamente a que falta no futebol…

JG

A pocilga

Quinta-feira, Setembro 07, 2006
Para quem quiser saber o que é Portugal, no ano da graça de 2006, basta ligar a RTP -1 que, na sua qualidade de "serviço público", exibe o regime no seu esplendor e miséria. A sra. D. Campos Ferreira voltou aos seus "Prós&Contras" eminentemente "pedagógicos" e, como lhe competia, começou pelo futebol. O sr. Major, o sr. Madaíl, o sr. Laurentino e, last but not least, essa pérola do "barrosismo" que é o dr. Arnaut - não esquecer que foi condecorado pelo presidente Sampaio pelos altos feitos prestados à nação aquando do Euro 2004 - estão "frente-a-frente" a debater o "futebol português". Sem o sr. Fiúza - não sei se estará presente ou em espírito - a coisa não tem tanta graça. De qualquer maneira, aquele quarteto basta. Não há meio de se ver o fundo à pocilga.

posted by João Gonçalves in Portugal dos Pequeninos

O Interesse Público de "Mateus"

Quarta-feira, Setembro 06, 2006
Julgava eu antes do relevantíssimo “Caso Mateus”, julgava mal, está à vista! que o interesse público, as relevantes razões de interesse público eram as mais sérias razões públicas para além do interesse particular, privado, que se inscreveriam nos fins próprios do Estado e que ao Estado competiria prosseguir.

Verifico ora que o “jogo da bola”, com generalizado aplauso, integra afinal o conceito, de tal forma que a F.P.F. vai invocar junto da jurisdição comum aquele relevante interesse público.

Ou seja, para resolver o imbróglio “Mateus” passa para o público interesse que o Belenenses jogue na Liga e não na Honra e que Gil Vicente jogue nesta e não naquela.

O interesse público aparece agora misturado com o futebol quando é certo que até para quem gosta da bola é irrelevante que na Liga jogue o Belenenses ou o Gil Vicente…quanto mais para o interesse público!

Mas o espantoso é que ora é a F.P.F. a invocar o sacrossanto interesse público, justamente a instância que, com a FIFA, recusa o carácter público das regras do futebol, salientando e fazendo finca pé do seu carácter privado e jurisdição própria – com definitiva recusa da jurisdição pública, os Tribunais!

Ou seja: a F.P.F. e FIFA que recusam a jurisdição pública comum – e, por isso, penalizam o Gil Vicente! – recorrem agora ao interesse público que negam!

A contradição é insanável!

De contradição em contradição o futebol vai até à derrota final…pois é minha convicção que, como no caso Bosman e qualquer que seja o fim do “Caso Mateus”, a prazo, a organização do futebol está condenada…a adaptar-se à jurisdição comum!

JG