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Doping... Mais uma reflexão

Quinta-feira, Agosto 31, 2006

Com o Verão chegam as provas velocipédicas e os grandes meetings internacionais de atletismo. Também chegam infelizmente notícias de controlos positivos de doping. Quem aproveita as férias do Verão para descontrair a ver essas provas de alto nível desportivo fica muitas vezes perplexo face aos resultados conseguidos. Entre o fascínio e a admiração por um lado e a incredulidade e o sorriso amarelo baila o nosso espírito.

A luta anti-doping, apesar de necessária e urgente, não é tarefa fácil nem livre de polémica.

O processo do treino desportivo tem como objectivo elevar ao máximo as capacidades do atleta de modo a que ele realize marcas de grande nível. Engloba inúmeras facetas: métodos e meios de treino físico, técnico, táctico e psicológico, processos de recuperação.

Quais os limites?

Entramos num campo em que as questões da ética e da moral sobressaem.

Vejamos:

Em 1967, o Conselho da Europa definiu Dopagem como a aplicação a um indivíduo saudável, ou uso por parte desse indivíduo de substâncias fisiológicas ou não, em quantidades consideráveis, com o único objectivo de artificialmente e deslealmente influenciar a sua prestação numa competição.

Apenas nesta definição poderemos encontrar vários conceitos que podem gerar alguma polémica: quando se refere a “substâncias fisiológicas ou não” podemos questionar o papel da alimentação. Atletas com possibilidade de se alimentarem mais correctamente do que outros, estarão obviamente em maior vantagem; Também o conceito “de artificialmente influenciar a sua prestação” pode ser alvo de polémica. O que será em treino desportivo o contrário de artificial? Será que o conceito de “deslealdade” é unanimemente aceite sem levantar questões éticas e morais sérias?

Por outro lado, a Agência Mundial Anti-dopagem no seu Código Mundial Anti-dopagem define que para uma substância ou um método possa ser considerado como dopante, seja necessário que pelo menos dois dos seguintes critérios estejam presentes:

• Ter potencial para melhorar ou melhora efectivamente o rendimento desportivo;

• Constituir um risco para a saúde do atleta:

• A sua utilização violar o espírito desportivo;

A polémica continuará pelo menos com os mesmos argumentos enumerados mais acima.

Um debate que se realiza actualmente no seio da Agência Mundial Anti-dopagem diz respeito às chamadas Câmaras de Altitude. O atleta treina ou descansa numa espécie de tenda que simula os efeitos do treino em altitude, sem o incómodo da deslocação para centros de treino em altitude.

O que se pretenderá com este método de treino? Não será apenas “melhorar efectivamente o rendimento desportivo”?

Estarão todos os atletas em igualdade de circunstâncias para usar este método? Se não, estará a violar-se o espírito desportivo?

O doping por si só não faz campeões, mas pode marcar a diferença, que em muitos casos é apenas uma pequena parte do segundo.

EP

Colectivas e individuais ... parabéns Portugal!

Através da comunicação social temos tido conhecimento, nos últimos dois meses, dos resultados alcançados internacionalmente por atletas portugueses, nas competições máximas de diferentes modalidades desportivas.

Antes de continuar, é de recordar, nesta oportunidade, que na história da participação internacional portuguesa, até aos anos sessenta do século passado, não existem muitos êxitos relevantes.

Daí que seja fácil concluir, no que se refere aos desportos que fazem parte do programa dos Jogos Olímpicos, que é inquestionável o nosso progresso qualitativo a partir dessa data, apesar de, e devemos reconhece – lo, do ponto de vista quantitativo, o número de atletas não ter crescido de acordo com a mediatização desses sucessos.

Há 50 anos era impensável a classificação que os magriços vieram a conquistar no Campeonato do Mundo de Futebol de Inglaterra, em 1966, pois vivíamos a época das “vitórias morais”, e, há 30, a seguir às medalhas do Carlos Lopes, os “futurólogos” diziam que os nossos êxitos internacionais se iriam resumir ao meio - fundo e ao fundo no atletismo.

Ao pessimismo que nessa altura estava instalado, após anos e anos de presenças apagadas nos grandes eventos mundiais, surgiram os resultados referidos no início deste texto, e que, em minha opinião, se devem:

- à melhor qualificação dos diferentes técnicos que participam no processo de treino, graças ao papel formador das Universidades, aos planos de formação das federações, associações de treinadores, etc, muitos deles apoiados pela Administração Pública Desportiva

- à modernização do nosso país, a seguir à entrada na Comunidade Económica Europeia

- aos apoios concedidos aos atletas, com projectos orientados para eles, melhorando as suas condições de preparação e proporcionando – lhes um enquadramento técnico e logístico compatível com as exigências do alto rendimento

Naturalmente que a nossa iliteracia desportiva e os indicadores de sedentarismo continuam a ser preocupantes e, curiosamente, coexistem, embora de uma forma mais mitigada, os êxitos internacionais com uma situação de claro subdesenvolvimento.

Mesmo tendo em conta esta realidade, é urgente que deixemos de ver as coisas pelo lado negativo, orgulhando-nos do que fizemos nos últimos anos e acreditando que somos capazes de fazer mais e melhor.

Não duvido que com a combinação de uma visão clara e partilhada de objectivos, de uma cultura de rigor e disciplina, em conjunto com um galvanizador trabalho de equipa, é possível ultrapassar obstáculos por mais difíceis que eles se nos apresentem.

Sendo a alta competição o nível da prática desportiva onde os intervenientes obtêm classificações e resultados de elevado mérito, avaliados por padrões internacionais, é de partilhar esta confiança, desde as modalidades colectivas, como o futebol no mundial da Alemanha, em Julho, até às modalidades individuais, como a canoagem, o triatlo e o atletismo nas últimas grandes competições internacionais.

Por confiar no que somos capazes, eu tenho de terminar como comecei: parabéns Portugal!

FE

O bife com batatas fritas

Quarta-feira, Agosto 30, 2006
Diz o Sr. Prof. Marçal Grilo na sua entrevista sobre o doping no ciclismo de a “Pública” nº 533 de 13 de Agosto, depois aqui transcrita que:

“ Ninguém sobe a Serra da Estrela, o Tourmalet ou o Galibier a comer bifes com batatas fritas.”

Ora ai está a facada mortal no ciclismo e no bife com batatas fritas que eu tanto aprecio e que, julgava eu, com ovo a cavalo, me ajudaria a subir a Serra da Estrela e o Tourmalet … pelo menos de Volvo!

Confesso que no verão sempre, no sofá, acompanho as transmissões televisivas do Tour, da Volta e as primeiras etapas da Vuelta, com indisfarçável admiração pelo esforço sobre – humano dos ciclistas que sozinhos vencem as maiores distâncias, as mais altas montanhas e as mais diversas condições de tempo.

Obviamente que não foi aquela sugestiva frase do Sr. Eng. Marçal Grilo que me desencantou relativamente ao ciclismo, antes a terrível sucessão dos escândalos de doping no ciclismo, pior, já não são escândalos antes a notícia corrente no ciclismo!

Parece até que o ciclismo esta transformado no campo de experimentação das novas técnicas de doping e dos novos produtos dopantes, sendo os ciclistas as respectivas cobaias.

Conclui Marçal Grilo, nas medidas a tomar, “achando absolutamente indispensável que a UCI faça um estudo pormenorizado sobre as condições em que o doping ocorre e perceba bem a lógica disto.”

Acho bem! … porém parece-me curto, insuficiente para travar a sucessão vertiginosa dos escândalos do doping.

Acrescentaria pois a criminalização, como agravamento de penas (privativas da liberdade por estar em causa ofensa à integridade física dos atletas) dos agentes desportivos (médicos, fisioterapeutas, directores desportivos…) responsáveis pela utilização de produtos dopantes, agravamento simultâneo das penas desportivas aos atletas da batota… ou seja, defendo um acréscimo das medidas repressivas.

Mas simultaneamente defendo a redução de penas aos atletas que denunciem os esquemas, as redes, os personagens do doping – não é bonito mas tem que ser, como alias se reclama no atletismo.

E ainda, no plano cível, dos contratos publicitários, televisivos, entre outros, defendo a legitimidade para a denúncia, com justa causa, desses contratos por força de casos de doping – questão ora suscitada após o Tour 2006!

É que eu queria recuperar o bife com batatas fritas com ovo a cavalo…
JG

NOVO COMENTADOR

Segunda-feira, Agosto 28, 2006

Conforme os nossos leitores já puderam verificar, o Zás-Trás conta com um novo comentador residente, e nada melhor que uma apresentação em discurso directo:

"Nasci em 1956, no seio de uma família de Ginasistas. O meu avô António Biscaia, o meu Tio-avô Severo Biscaia e o meu pai Luís Biscaia, todos, em épocas diferentes, presidiram a Direcções do Ginásio Clube Figueirense. Foram eles que me transmitiram o afecto pelo clube.

Sou sócio quase desde que me conheço.

Frequentei a Iniciação Desportiva, mas só episodicamente pratiquei basquetebol sem grande jeito.

Desde miúdo assistia com entusiasmo às regatas no rio, aprendi a nadar com Edmundo Barrué, fazia claque no tempo em que havia futebol de formação liderado por Eduardo Mourinho, acompanhei os êxitos do ping-pong do Maçãs ou os primeiro triunfos no halterofilismo do Adalberto Carvalho, vibrei com a conquista do campeonato nacional de basquetebol no tempo dos gloriosos moçambicanos e cheguei a participar nuns torneios de partidas rápidas de Xadrez dinamizados por Jorge Babo e Cerqueira da Rocha.

Claro que fui aos bailes de Carnaval e da Pinhata no salão da Rua dos Combatentes.

Cheguei a fazer teatro no sótão da velha sede que conheci canto por canto.

Como maior "feito" descerrei a placa que atribuia o nome de meu avô à sala da Direcção.

Desde 2005 que tenho orgulho em ser delegado do Ginásio para a zona de Leiria, onde resido"

Um cais de onde não se parte

Terça-feira, Agosto 22, 2006
Sim, eu sei que os objectivos deste blog têm a ver com o desporto em geral. Sim, fui informado que este espaço não pretende ser uma página do Ginásio, para consumo interno. Sim, tenho consciência que aqui vou partilhar opinião com ilustres conhecedores da matéria. Mesmo assim, apesar das minhas limitações, fiquei muito honrado e contente por me convidarem a postar, de vez em quando, no Zas-trás. Eu, que nunca fui praticante de nenhuma modalidade a não ser uma episódica época em que tentei, impelido pela generosidade dos centímetros, jogar basquete, sem nunca ter saído do banco. Com toda a justiça, diga-se!... No entanto, tenho clube desde que nasci ou talvez mesmo antes. Tenho inscrito no meu património genético, vindo de outras gerações, um emblema, uma história, um grito tribal, afectos e gente com que me fiz gente.
Há um rosário de episódios familiares que ainda hoje me fazem sorrir, há memória de derrotas desportivas transformadas em vitórias morais (sempre uma forqueta do voga partida ao passar a ponte...) há solidariedades que resistiram aos tempos das agudas diferenças, há uma âncora do meu barco fixada no que foi a velha Rua dos Combatentes, há rostos e vidas que me lembram a magia indescritível de fazer, com entusiasmo, coisas comuns. E, em verdade, também muitos dos amigos que pude coleccionar com carinho, têm a mesma referência e se arrepiam quando o Rolinho Sopas nos convoca para uma outra remada.
Para nós que estamos longe, mas que nunca partimos desse cais, o Ginásio é uma amarra firme que não largamos.
E é isso que fica depois de tudo esquecermos.

Pedro Melo Biscaia

Campeonato orçamental :

1º - FCP: 40 milhões de euros;
2º - Benfica: 25 milhões de euros;
3º - Sporting: 20 milhões de euros;
4º - Marítimo: 7,5 milhões de euros;
5º - Braga: 5 milhões de euros;
5º - Nacional da Madeira: 5 milhões de euros;
7º - Académica: 4,5 milhões de euros;
8º - Boavista: 4 milhões de euros;
9º - Belenenses: 3,75 milhões de euros;
10º - Leiria: 3,5 milhões de euros;
11º - Beira-Mar: 2,5 milhões de euros;
12º - Setúbal: 1,75 milhões de euros;
13º - Amadora: 1,7 milhões de euros;
14º - Naval: 1,6 milhões de euros;
15º - Paços de Ferreira: 1,5 milhões de euros;
15º - Aves: 1,5 milhões de euros;

Fonte: Record Guia de Futebol 2006/2007

TOTAL - quase 130 milhões !!!!

E quantos mais não passarão por "debaixo da porta"?
E, desses milhões todos, quantos sairão do nosso bolso, directa ou indirectamente?
E quantos ficam por mãos alheias?
E quantos servem para alimentar os "esquemas"?
E depois de gastarem tantos milhões quantos mais ficam a dever ao Estado e a outros credores?
Quando acabará esta pouca vergonha, num país onde o cinto já anda tão apertado que a dor de barriga passou a crónica?

Boa Memória 20.08.06 - 3:35 am #

publicado no Blogue BLASFÉMIAS em 19/08/2006

O doping não transforma um mau ciclista num bom ciclista

Segunda-feira, Agosto 21, 2006
É inevitável que algo mude no ciclismo para que a modalidade não caia no descrédito absoluto, tantos são os casos de doping que a ensombram diz Marçal Grilo. Adepto confesso e conhecedor profundo deste desporto, lembra, no entanto, que o doping não faz um campeão. Defendendo o regresso dos grandes clubes portugueses à modalidade, diz que se vive um momento de transição em Portugal, onde os melhores, quando alcançam notoriedade, vão correr para o estrangeiro. Por isso, dificilmente se verá no pelotão nacional um ciclista português

P.- Acha que, no actual momento, alguém acredita que o vencedor de uma grande prova de ciclismo não se dopou?

R.- A pergunta não é de fácil resposta. Neste momento existe uma suspeição generalizada da utilização de produtos que estão na margem da legalidade. A questão do doping é uma questão dramática no ciclismo e não podemos esconder que a modalidade está, em certa medida, em risco com o uso do doping. Mas também tenho a sensação que todo o atleta que faz um esforço como o dos ciclistas tem, obrigatoriamente, que ter um acompanhamento médico e usar produtos que os apoiem, embora dentro da legalidade. Terão que ser as instâncias médicas internacionais a definir o que é permitido e não é, mantendo a verdade desportiva e não prejudicando a saúde dos atletas. É preciso lembrar que o doping é uma coisa que não apareceu hoje. O primeiro caso que eu me recordo ocorreu no início dos anos 50, na Volta à França.

P.- Haverá alguém a quem possa ser atribuída a culpa da situação actual? Aos ciclistas, aos directores das provas, que as tornam tão exigentes que os atletas quase que são obrigados a recorrer a substâncias dopantes para as ultrapassar...

R.- Há uma culpa generalizada nesta matéria. Não me parece que se possa dizer que os organizadores sejam responsáveis. Os Pirinéus estão na Volta à França deste 1910. As montanhas estão nas provas de ciclismo ainda antes dessa data. Se consultar os jornais da época verifica que os ciclistas se revoltaram contra os organizadores. A primeira vez que se passou nos Pirinéus os ciclistas consideraram que aquilo era uma coisa sobre-humana e que não se poderia exigir deles um esforço daqueles. Simplesmente também temos que perceber que aquilo que sucedeu desde 1910 até hoje, em matéria de estradas, de bicicletas, de alimentação, de treino, etc., é muito diferente. Mas há, em termos colectivos, nas equipas, uma grande responsabilidade. Isto é, médicos, massagistas, directores técnicos e dos próprios ciclistas. Mas o doping não transforma um mau ciclista num bom ciclista. O doping não faz um campeão. Até há um caso, mais ou menos conhecido, que é o do nosso Joaquim Agostinho. Algumas vezes ele foi apanhado dopado e eu julgo que se tratava de uma questão psicológica. Ele tinha medo de perder. Ele sabia que era melhor do que os outros, que ganhava à vontade. Mas tinha medo de perder. Utilizava aqueles produtos, que não tinham um quarto da sofisticação dos existentes actualmente, por uma questão muito mais psicológica do que outra coisa. Ou seja. O produto dopante não transforma um ciclista normal num campeão. O que lhe dá é aquele tónico que permite ultrapassar-se psicologicamente usando as suas capacidades. Ele não lhe dá mais capacidades... Um ex-ciclista disse-me uma vez: Às vezes, há aquele produto que tomamos e que nos permite ir atrás do selim do outro. Há casos em que o director desportivo dá um produto qualquer a um ciclista dizendo-lhe que lhe está a dar uma coisa que lhe permite fazer isto, aquilo e aqueloutro e depois aquilo era meramente um placebo...

P.- Mas o que é verdade é que o número de casos de doping tem vindo a aumentar e a sucessão de escândalos é quase vertiginosa. Não acha que têm que ser tomadas medidas radicais?

R.- Acho absolutamente indispensável que a União Ciclista Internacional (UCI) faça um estudo muito pormenorizado sobre as condições em que o doping ocorre e percebe bem a lógica disto. Se não o fizer o que vai acontecer é a lógica do ladrão e do polícia, ou seja, o polícia anda sempre atrás do método do ladrão, ou como nos exames, em que o professor sabe sempre depois dos alunos o último método de copiar.

P.- Corre-se o risco de a modalidade cair num descrédito absoluto?

R.- Corre. Se não houver uma tomada de posição muito firme, corre-se. Bem, este ano isso sucedeu na Volta à França, quer antes, quer depois, porque antes houve aquela inquirição espanhola que levou alguns dos melhores ciclistas do pelotão internacional a serem afastados e de uma forma radical. Isto é, foram impedidos de disputar a prova independentemente de a sanção lhes ter sido aplicada pelo órgão próprio. A organização da Volta à França assumiu que aqueles ciclistas não deviam estar na competição. E estamos a falar de nomes como os de Ivan Basso e Jan Ullrich, que eram os dois maiores favoritos. Mais tarde a própria equipa veio a assumir a expulsão do Jan Ullrich, o que mostra bem o incómodo que isto traz às equipas e aos patrocinadores.

P.- Mas se é verdade que essa tomada de posição teve o seu lado profilático, não deixa de ser assustador, pois é o assumir de que os melhores se dopavam. E depois, no final, ainda se veio a saber que o vencedor também se terá dopado...

R.- Sim, claro. O momento é muito delicado, ainda para mais numa altura em que o pelotão internacional não é dominado por ninguém, não tem nenhuma figura tutelar como houve durante os sete anos em que correu o Lance Armstrong. Penso que a UCI deve fazer uma reflexão muito profunda sobre isto, fora dos olhares do público. Isto deve ser feito em termos muito científicos e técnicos. É preciso perceber bem o fenómeno. Há quem defenda a utilização livre destas substâncias, mas eu penso que seria um erro clamoroso, porque isso sifnificaria cairmos em situações como as que ocorreram com os atletas da Alemanha de Leste, em que, ao fim de 20 anos, eram pessoas destruídas. É preciso que se perceba que durante muitos anos o desporto não teve controlo nenhum e nessa altura cometeram-se as maiores barbaridades. Tenho relatos de jornalistas que acompanharam a Volta à França em que os ciclistas paravam na estrada, à vista de toda a gente, tiravam uma ampola, injectavam-se a eles próprios e continuavam a correr. E isto passou-se há 20 ou há 30 anos.
Mas também penso que temos que ser realistas e, como um ex-ciclista me disse um dia, perceber que ninguém sobe a Serra da Estrela, o Tourmalet ou o Galibier a comer bifes com batatas fritas. E eu percebo isso. Este ano houve uma etapa na Volta à França em que era o Tourmalet, o Aspin, o Portillon e o Puerto de Beret. Eu fiz aquilo no meu carro, que é um BMW e percebi que o BMW chega ao fim um bocado cansado, quanto mais um indivíduo em cima de uma bicicleta que faz 200km com um esforço inaudito. No dia seguinte, para estar na linha de partida em condições para fazer outros 200kms e outras não sei quantas montanhas tem que ter uma recuperação especial.

P.- Quando viu Floyd Landis [o vencedor da Volta à França deste ano e a quem foi retirado o título devido a um controlo positivo de doping numa etapa] ganhar de forma tão destacada aquela etapa em que deixou todos para trás, não suspeitou que aquilo só era possível com uma ajuda extra?

R.- Eu pensei foi que a irregularidade dos ciclistas tem limites porque no dia anterior teve um dia péssimo e na jornada seguinte mostrou uma superioridade fantástica. Bom, depois viemos a perceber que, se calhar, havia ali um valor acrescentado qualquer. Mas eu não sou um purista. Gosto muito da modalidade, mas tenho muita pena em vê-la, de certa forma, enxovalhada publicamente.

P.- Lance Armstrong, um dos melhores ciclistas de todos os tempos, também viu o seu nome muitas vezes ligado a suspeições relacionadas com o doping, embora nunca tivesse sido apanhado. Acredita que ele é, digamos, um homem limpo?

R.- Acho que ele foi muito bem trabalhado. Aquilo foi muito bem feito. Se olhar para a vida do Lance Armstrong percebe que ele não é uma pessoa normal. O grande apport na sua vida profissional é-lhe dado pelo cancro que teve. Não perdeu capacidade respiratória, apenas perdeu peso. Apesar de ter sido campeão do mundo antes da doença, quando recomeçou a correr é uma pessoa fisicamente diferente do que era. No que diz respeito ao doping penso que geriu muitíssimo bem todos os produtos que tomou.

P.- Considera-o o melhor ciclista de todos os tempos?

R.- Não. Acho que os maiores ciclistas de todos os tempos estão entre o Bartali, o Coppi, o Merckx, o Anquetil e talvez o Armstrong. O Armstrong é difícil de comparar com os restantes porque geriu uma carreira de uma forma muito diferente dos outros. Ele fez uma aposta numa grande prova do ciclismo, que é a Volta à França, e fez toda uma carreira para ganhar o Tour. E ganhá-la com uma grande equipa, coisa que os outros ciclistas não tinham. Os nove ciclistas corriam para ele, o que anteriormente nunca tinha acontecido.

P.- E o ciclismo português atravessa um bom ou mau momento?

R.- Estamos num momento de transição, aliás como o ciclismo internacional. Não há mandões no pelotão. Em Portugal temos uma dificuldade acrescida que é quando um ciclista ganha alguma notoriedade, como é o caso do José Azevedo ou do Sérgio Paulinho, vão logo para o estrangeiro e deixam de correr em Portugal. Só podem fazer em Portugal a Volta ao Alentejo ou ao Algarve, competições mais de início de temporada. Por isso, dificilmente viremos a ter no pelotão português um ciclista português. O Sérgio Paulinho, que vai ser, na minha opinião, um grande ciclista, se calhar nunca terá a hipótese de ganhar uma Volta a Portugal. Portanto, o ciclismo português é periférico.

P.- Defende a alteração da data da realização da Volta a Portugal, de forma a posicioná-la num período mais atractivo no calendário internacional, ou considera que tem que ser em Agosto?

R.- Sou dos que defende que a Volta a Portugal tem que ser em Agosto. Penso que para o ano vai ter um prólogo e passará a ter 12 dias, com um de descanso pelo meio, em vez dos 11 com um dia de descanso. As pessoas habituaram-se a que a Volta seja em Agosto. Mas admito que se pudesse fazer uma prova Lisboa-Madrid ou Madrid-Lisboa, colocada noutra altura do calendário, se fosse possível, e que seria uma competição ibérica. Uma coisa com três ou quatro dias, que pudesse ter alguma atracção do ponto de vista internacional.

P.- Vê com bons olhos a possibilidade do regresso dos principais clubes portugueses ao ciclismo?

R.- Seria um grande passo para o ciclismo em Portugal. Percebo que o risco económico-financeiro para os clubes é grande, pois implica contratos de longo prazo com patrocinadores e obriga a colocar estas equipas a competir em provas no estrangeiro com os custos inerentes, mas para o ciclismo seria um salto em frente enorme. Eu acompanhei a Volta a Portugal no ano de 1999, no ano em que o Benfica foi para a estrada, e vi a loucura que foi haver uma equipa do Benfica na Volta. Eu acompanhei uma etapa que, salvo erro, foi entre Bragança e a Senhora da Graça, uma zona afastadíssima de Lisboa, e vi na estrada milhares de pessoas com bandeiras e cachecóis do Benfica, pois o Benfica tem uma implantação nacional brutal. Se fosse possível transmitir esse entusiasmo ao Sporting e ao FC Porto, penso que o país delirava com uma disputa dessas durante o mês de Agosto.

Eduardo Marçal Grilo (EMG)
Entrevista à Revista PÚBLICA em 13 de Agosto

Quarta-feira, Agosto 16, 2006


Faz hoje um ano teve início este blogue, promovido pelo Ginásio Clube Figueirense não, como alguns esperavam, para focar assuntos do clube, mas como contributo para a discussão dos mais diversos aspectos do desporto nacional.

Noventa e uma pequenas crónicas (*), quantas vezes de inegável qualidade e oportunidade, suscitando mesmo algumas referências na comunicação social, dão uma ideia da regularidade conseguida ao longo do ano, que acompanhou o crescimento, lento mas gradual, do número de leitores.

Tudo nos incentiva, portanto, a continuarmos, assinalando este aniversário com um caloroso agradecimento aos nossos comentadores residentes.

(*) Sem esquecer as 4 transcrições de blogues de referência (Abrupto, 4ª República e ArturAntunes) e 12 notas de ocasião, do editor.

A côr do dinheiro e das camisolas

Sexta-feira, Agosto 11, 2006
Este meu comentário é-me suscitado pela reacção de alguns sócios da Académica face às cores dos novos equipamentos da equipa de futebol.

Reagem aqueles ilustres academistas às cores condicionadas pelo patrocínio "Dolce Vita", afirmando-se os verdadeiros guardiões do templo academista na defesa da tradição, do purismo, da matriz académica, que se expressaria nas tradicionais cores, preta e branca, dos equipamentos principal e alternativo da AAC.

É curioso que aqueles "verdadeiros" academistas que clamam por uma Assembleia Geral para defesa das cores tradicionais dos equipamentos, simultâneamente, cumplices, calam qualquer reacção à invasão da AAC por um jogador turco, outro húngaro, mais um colombiano, mais outro nigeriano, também um paraguaio, vem aí um croata, estão há anos cinquenta mil brasileiros... e, eu sei lá!, nenhum estudante!

É sabido que o espectáculo futebol vive hoje do espectáculo televisivo, submetendo-se, por isso, às exigências do espectáculo mediático aqui incluidas as cores, as cores da moda.

Restará, quando muito, a "pureza" do emblema, mas, ainda aqui, com modernizado tratamento gráfico.

É visível que nas principais equipas do futebol mundial os equipamentos mudaram na concepção e cores, restando o emblema como factor de identificação, tudo submetido aos interesses do patrocinador que financia a actividade do clube e até da selecção nacional.

Repare-se que até o Barcelona, fundamentalista, na recusa de publicidade nas camisolas da equipa de futebol vai este ano quebrar a regra, cedendo, hoje, a publicitar uma causa humanitária,a Unicef. Vejamos, porém, o que acontecerá amanhã... uma vez quebrada a regra!

A questão não é pois a das cores das camisolas, mas a da côr do dinheiro (que a não tem...!) que impõe aquelas!

Conclusão definitiva: falam barato os puristas da AAC!

JG