É inevitável que algo mude no ciclismo para que a modalidade não caia no descrédito absoluto, tantos são os casos de doping que a ensombram diz Marçal Grilo. Adepto confesso e conhecedor profundo deste desporto, lembra, no entanto, que o doping não faz um campeão. Defendendo o regresso dos grandes clubes portugueses à modalidade, diz que se vive um momento de transição em Portugal, onde os melhores, quando alcançam notoriedade, vão correr para o estrangeiro. Por isso, dificilmente se verá no pelotão nacional um ciclista português
P.- Acha que, no actual momento, alguém acredita que o vencedor de uma grande prova de ciclismo não se dopou?
R.- A pergunta não é de fácil resposta. Neste momento existe uma suspeição generalizada da utilização de produtos que estão na margem da legalidade. A questão do doping é uma questão dramática no ciclismo e não podemos esconder que a modalidade está, em certa medida, em risco com o uso do doping. Mas também tenho a sensação que todo o atleta que faz um esforço como o dos ciclistas tem, obrigatoriamente, que ter um acompanhamento médico e usar produtos que os apoiem, embora dentro da legalidade. Terão que ser as instâncias médicas internacionais a definir o que é permitido e não é, mantendo a verdade desportiva e não prejudicando a saúde dos atletas. É preciso lembrar que o doping é uma coisa que não apareceu hoje. O primeiro caso que eu me recordo ocorreu no início dos anos 50, na Volta à França.
P.- Haverá alguém a quem possa ser atribuída a culpa da situação actual? Aos ciclistas, aos directores das provas, que as tornam tão exigentes que os atletas quase que são obrigados a recorrer a substâncias dopantes para as ultrapassar...
R.- Há uma culpa generalizada nesta matéria. Não me parece que se possa dizer que os organizadores sejam responsáveis. Os Pirinéus estão na Volta à França deste 1910. As montanhas estão nas provas de ciclismo ainda antes dessa data. Se consultar os jornais da época verifica que os ciclistas se revoltaram contra os organizadores. A primeira vez que se passou nos Pirinéus os ciclistas consideraram que aquilo era uma coisa sobre-humana e que não se poderia exigir deles um esforço daqueles. Simplesmente também temos que perceber que aquilo que sucedeu desde 1910 até hoje, em matéria de estradas, de bicicletas, de alimentação, de treino, etc., é muito diferente. Mas há, em termos colectivos, nas equipas, uma grande responsabilidade. Isto é, médicos, massagistas, directores técnicos e dos próprios ciclistas. Mas o doping não transforma um mau ciclista num bom ciclista. O doping não faz um campeão. Até há um caso, mais ou menos conhecido, que é o do nosso Joaquim Agostinho. Algumas vezes ele foi apanhado dopado e eu julgo que se tratava de uma questão psicológica. Ele tinha medo de perder. Ele sabia que era melhor do que os outros, que ganhava à vontade. Mas tinha medo de perder. Utilizava aqueles produtos, que não tinham um quarto da sofisticação dos existentes actualmente, por uma questão muito mais psicológica do que outra coisa. Ou seja. O produto dopante não transforma um ciclista normal num campeão. O que lhe dá é aquele tónico que permite ultrapassar-se psicologicamente usando as suas capacidades. Ele não lhe dá mais capacidades... Um ex-ciclista disse-me uma vez: Às vezes, há aquele produto que tomamos e que nos permite ir atrás do selim do outro. Há casos em que o director desportivo dá um produto qualquer a um ciclista dizendo-lhe que lhe está a dar uma coisa que lhe permite fazer isto, aquilo e aqueloutro e depois aquilo era meramente um placebo...
P.- Mas o que é verdade é que o número de casos de doping tem vindo a aumentar e a sucessão de escândalos é quase vertiginosa. Não acha que têm que ser tomadas medidas radicais?
R.- Acho absolutamente indispensável que a União Ciclista Internacional (UCI) faça um estudo muito pormenorizado sobre as condições em que o doping ocorre e percebe bem a lógica disto. Se não o fizer o que vai acontecer é a lógica do ladrão e do polícia, ou seja, o polícia anda sempre atrás do método do ladrão, ou como nos exames, em que o professor sabe sempre depois dos alunos o último método de copiar.
P.- Corre-se o risco de a modalidade cair num descrédito absoluto?
R.- Corre. Se não houver uma tomada de posição muito firme, corre-se. Bem, este ano isso sucedeu na Volta à França, quer antes, quer depois, porque antes houve aquela inquirição espanhola que levou alguns dos melhores ciclistas do pelotão internacional a serem afastados e de uma forma radical. Isto é, foram impedidos de disputar a prova independentemente de a sanção lhes ter sido aplicada pelo órgão próprio. A organização da Volta à França assumiu que aqueles ciclistas não deviam estar na competição. E estamos a falar de nomes como os de Ivan Basso e Jan Ullrich, que eram os dois maiores favoritos. Mais tarde a própria equipa veio a assumir a expulsão do Jan Ullrich, o que mostra bem o incómodo que isto traz às equipas e aos patrocinadores.
P.- Mas se é verdade que essa tomada de posição teve o seu lado profilático, não deixa de ser assustador, pois é o assumir de que os melhores se dopavam. E depois, no final, ainda se veio a saber que o vencedor também se terá dopado...
R.- Sim, claro. O momento é muito delicado, ainda para mais numa altura em que o pelotão internacional não é dominado por ninguém, não tem nenhuma figura tutelar como houve durante os sete anos em que correu o Lance Armstrong. Penso que a UCI deve fazer uma reflexão muito profunda sobre isto, fora dos olhares do público. Isto deve ser feito em termos muito científicos e técnicos. É preciso perceber bem o fenómeno. Há quem defenda a utilização livre destas substâncias, mas eu penso que seria um erro clamoroso, porque isso sifnificaria cairmos em situações como as que ocorreram com os atletas da Alemanha de Leste, em que, ao fim de 20 anos, eram pessoas destruídas. É preciso que se perceba que durante muitos anos o desporto não teve controlo nenhum e nessa altura cometeram-se as maiores barbaridades. Tenho relatos de jornalistas que acompanharam a Volta à França em que os ciclistas paravam na estrada, à vista de toda a gente, tiravam uma ampola, injectavam-se a eles próprios e continuavam a correr. E isto passou-se há 20 ou há 30 anos.
Mas também penso que temos que ser realistas e, como um ex-ciclista me disse um dia, perceber que ninguém sobe a Serra da Estrela, o Tourmalet ou o Galibier a comer bifes com batatas fritas. E eu percebo isso. Este ano houve uma etapa na Volta à França em que era o Tourmalet, o Aspin, o Portillon e o Puerto de Beret. Eu fiz aquilo no meu carro, que é um BMW e percebi que o BMW chega ao fim um bocado cansado, quanto mais um indivíduo em cima de uma bicicleta que faz 200km com um esforço inaudito. No dia seguinte, para estar na linha de partida em condições para fazer outros 200kms e outras não sei quantas montanhas tem que ter uma recuperação especial.
P.- Quando viu Floyd Landis [o vencedor da Volta à França deste ano e a quem foi retirado o título devido a um controlo positivo de doping numa etapa] ganhar de forma tão destacada aquela etapa em que deixou todos para trás, não suspeitou que aquilo só era possível com uma ajuda extra?
R.- Eu pensei foi que a irregularidade dos ciclistas tem limites porque no dia anterior teve um dia péssimo e na jornada seguinte mostrou uma superioridade fantástica. Bom, depois viemos a perceber que, se calhar, havia ali um valor acrescentado qualquer. Mas eu não sou um purista. Gosto muito da modalidade, mas tenho muita pena em vê-la, de certa forma, enxovalhada publicamente.
P.- Lance Armstrong, um dos melhores ciclistas de todos os tempos, também viu o seu nome muitas vezes ligado a suspeições relacionadas com o doping, embora nunca tivesse sido apanhado. Acredita que ele é, digamos, um homem limpo?
R.- Acho que ele foi muito bem trabalhado. Aquilo foi muito bem feito. Se olhar para a vida do Lance Armstrong percebe que ele não é uma pessoa normal. O grande apport na sua vida profissional é-lhe dado pelo cancro que teve. Não perdeu capacidade respiratória, apenas perdeu peso. Apesar de ter sido campeão do mundo antes da doença, quando recomeçou a correr é uma pessoa fisicamente diferente do que era. No que diz respeito ao doping penso que geriu muitíssimo bem todos os produtos que tomou.
P.- Considera-o o melhor ciclista de todos os tempos?
R.- Não. Acho que os maiores ciclistas de todos os tempos estão entre o Bartali, o Coppi, o Merckx, o Anquetil e talvez o Armstrong. O Armstrong é difícil de comparar com os restantes porque geriu uma carreira de uma forma muito diferente dos outros. Ele fez uma aposta numa grande prova do ciclismo, que é a Volta à França, e fez toda uma carreira para ganhar o Tour. E ganhá-la com uma grande equipa, coisa que os outros ciclistas não tinham. Os nove ciclistas corriam para ele, o que anteriormente nunca tinha acontecido.
P.- E o ciclismo português atravessa um bom ou mau momento?
R.- Estamos num momento de transição, aliás como o ciclismo internacional. Não há mandões no pelotão. Em Portugal temos uma dificuldade acrescida que é quando um ciclista ganha alguma notoriedade, como é o caso do José Azevedo ou do Sérgio Paulinho, vão logo para o estrangeiro e deixam de correr em Portugal. Só podem fazer em Portugal a Volta ao Alentejo ou ao Algarve, competições mais de início de temporada. Por isso, dificilmente viremos a ter no pelotão português um ciclista português. O Sérgio Paulinho, que vai ser, na minha opinião, um grande ciclista, se calhar nunca terá a hipótese de ganhar uma Volta a Portugal. Portanto, o ciclismo português é periférico.
P.- Defende a alteração da data da realização da Volta a Portugal, de forma a posicioná-la num período mais atractivo no calendário internacional, ou considera que tem que ser em Agosto?
R.- Sou dos que defende que a Volta a Portugal tem que ser em Agosto. Penso que para o ano vai ter um prólogo e passará a ter 12 dias, com um de descanso pelo meio, em vez dos 11 com um dia de descanso. As pessoas habituaram-se a que a Volta seja em Agosto. Mas admito que se pudesse fazer uma prova Lisboa-Madrid ou Madrid-Lisboa, colocada noutra altura do calendário, se fosse possível, e que seria uma competição ibérica. Uma coisa com três ou quatro dias, que pudesse ter alguma atracção do ponto de vista internacional.
P.- Vê com bons olhos a possibilidade do regresso dos principais clubes portugueses ao ciclismo?
R.- Seria um grande passo para o ciclismo em Portugal. Percebo que o risco económico-financeiro para os clubes é grande, pois implica contratos de longo prazo com patrocinadores e obriga a colocar estas equipas a competir em provas no estrangeiro com os custos inerentes, mas para o ciclismo seria um salto em frente enorme. Eu acompanhei a Volta a Portugal no ano de 1999, no ano em que o Benfica foi para a estrada, e vi a loucura que foi haver uma equipa do Benfica na Volta. Eu acompanhei uma etapa que, salvo erro, foi entre Bragança e a Senhora da Graça, uma zona afastadíssima de Lisboa, e vi na estrada milhares de pessoas com bandeiras e cachecóis do Benfica, pois o Benfica tem uma implantação nacional brutal. Se fosse possível transmitir esse entusiasmo ao Sporting e ao FC Porto, penso que o país delirava com uma disputa dessas durante o mês de Agosto.
Eduardo Marçal Grilo (EMG)
Entrevista à Revista PÚBLICA em 13 de Agosto