As eleições autárquicas e o planeamento desportivo nas novas funções sociais dos clubes
Quinta-feira, Outubro 27, 2005
Realizaram-se no passado dia 9 de Outubro eleições autárquicas e, para finalizar o processo, estão a decorrer as tomadas de posse.
Por esta razão, é oportuna uma reflexão sobre a função do planeamento nos apoios da Administração Pública ( central, regional e local ) aos clubes desportivos.
Tendo como condicionante a situação que se vive no nosso país, que se deseja conjuntural - do cumprimento dos objectivos do Pacto de Estabilidade e Crescimento e do conhecimento das variáveis macroeconómicas que afectam as expectativas do crescimento económico no futuro próximo -, tal não impede que os clubes desportivos avancem para um sistema de planeamento a quatro anos, considerando as eleições quadrienais das autarquias, e independentemente da periodicidade eleitoral contemplada nos seus estatutos, pois é desejável que estes sejam aprovados em assembleias gerais, depois de amplamente discutidos.
É que, mesmo quando conseguirmos ultrapassar as dificuldades actuais, os recursos jamais serão ilimitados, e a “ gestão por impulsos”, que ainda hoje caracteriza muitas das nossas colectividades, tem de ser abandonada, pois o processo de desenvolvimento desportivo terá de obedecer a prioridades, em ordem à garantia de uma potenciada e mais racional rentabilização dos recursos humanos, materiais e dos meios financeiros disponíveis.
Apesar de o planeamento estratégico ter um horizonte temporal a quatro anos, tal não impede que ele seja flexível e anualmente se adapte aos novos dados que a todo o momento vão surgindo, de acordo com a imaginação, a criatividade e o sentido de oportunidade dos dirigentes dos clubes.
Há uns anos atrás, numa comunicação feita aos dirigentes da Federação que então dirigia, o Presidente do IDP dizia que em Portugal estavam referenciados 9500 clubes, representando cada um deles cerca de 1000 habitantes, numa altura em que a taxa de hábitos desportivos da população portuguesa se situava à volta dos 27%.
Muitos de nós sabem que no nosso país, a seguir a 1974, e por efeitos da nova vivência democrática, duplicou o número de clubes. Contudo, a partir dos anos noventa, a situação inverteu-se, desaparecendo muitos deles, numa grandeza que atingiu, no interior, os 50%.
Diversas razões contribuíram para isto, salientando – se: o envelhecimento das populações e dos dirigentes desportivos sem a imprescindível renovação das gerações e das mentalidades, e o número considerável daqueles que direccionaram a sua participação cívica para sindicatos e partidos políticos. A partir do ano 2000 esta situação agravou - se, como resultado das condições de vida cada vez mais desmobilizadoras do envolvimento dos associados no destino das suas colectividades.
Em 1998, o Dr. Fernando Seara foi o orador convidado do programa das comemorações do aniversário do Ginásio Figueirense.
No final da sua palestra, e de uma maneira completamente informal, discuti com ele um livro (best-seller) que ambos tínhamos lido, cujo tema eram as macrotendências da sociedade actual, e o qual distinguia, nos movimentos sociais – as modas -, de carácter passageiro, resultado de movimentos do topo para a base -das tendências -, deslocando - se estes da base para o topo, naturalmente muito mais lentos e duradouros do que os anteriores.
Vem isto a propósito, da alteração do conceito de desenvolvimento desportivo a que vimos assistindo, que já não se esgota na capacidade de ganhar medalhas, ter muitos campeões ou atrair milhões de pessoas.
Se recuarmos um pouco no tempo, encontramos no século dezanove, em Inglaterra, o aparecimento do desporto moderno. É aí que, por volta de 1830, o desporto começou a ser encarado como um meio educativo nas escolas e colégios ingleses. A riqueza da tradição do associativismo neste país levou a que, ainda hoje, existam lá mais de 150.000 clubes.
Como consequência do que escrevi atrás, entendo que o desenvolvimento desportivo deverá considerar os benefícios do desporto na vida das populações, de uma região ou de uma localidade e, para isso, o clube tem de basear a sua actividade na qualidade e na diversidade dos seus projectos e na oferta dos seus serviços.
Só assim os sócios poderão estar presentes, com toda a família, nas suas instalações desportivas, e só deste modo a capacidade da oferta se ajustará mais facilmente às necessidades de cada um dos seus membros.
O papel do clube, nos dias de hoje, é ainda o de uma entidade integradora de diferentes grupos sociais (famílias, jovens em idade escolar, idosos, deficientes, militares, trabalhadores de empresas, etc), reforçando laços e partilhando projectos de vida comum.
Por esta razão, mais facilmente se compreende que o clube desportivo deva ter um relacionamento privilegiado com as autarquias locais ( Câmara e Juntas de Freguesia ), integrando-se em projectos da política municipal de desenvolvimento desportivo, e com elas celebrando contratos – programa que obedeçam a planos estratégicos que acompanhem a duração dos mandatos dos autarcas, mas sem nunca pôr em causa a sua autonomia e independência.
Recordo, nesta oportunidade, o Decreto - Lei n º 432/91 de 6 de Novembro, diploma que define o regime aplicável aos contratos - programa celebrados com vista à atribuição de comparticipações financeiras, o qual termina o seu preâmbulo desta maneira: “ Foi ouvida a Associação Nacional dos Municípios Portugueses”.
Antes de concluir, gostaria de felicitar os actuais dirigentes do Ginásio Clube Figueirense por esta iniciativa.
Estou certo que os pioneiros que nos legaram este Clube, bem como todos os dedicados dirigentes que, durante mais de um século, mantiveram e animaram a vida do Ginásio e dos ginasistas, merecem um profundo reconhecimento de todos nós, e a minha participação neste blogue é uma forma de lhes demonstrar a minha admiração e de prestar a todos uma homenagem mais do que merecida.
Parabéns Ginásio!
Fernando Estima
Por esta razão, é oportuna uma reflexão sobre a função do planeamento nos apoios da Administração Pública ( central, regional e local ) aos clubes desportivos.
Tendo como condicionante a situação que se vive no nosso país, que se deseja conjuntural - do cumprimento dos objectivos do Pacto de Estabilidade e Crescimento e do conhecimento das variáveis macroeconómicas que afectam as expectativas do crescimento económico no futuro próximo -, tal não impede que os clubes desportivos avancem para um sistema de planeamento a quatro anos, considerando as eleições quadrienais das autarquias, e independentemente da periodicidade eleitoral contemplada nos seus estatutos, pois é desejável que estes sejam aprovados em assembleias gerais, depois de amplamente discutidos.
É que, mesmo quando conseguirmos ultrapassar as dificuldades actuais, os recursos jamais serão ilimitados, e a “ gestão por impulsos”, que ainda hoje caracteriza muitas das nossas colectividades, tem de ser abandonada, pois o processo de desenvolvimento desportivo terá de obedecer a prioridades, em ordem à garantia de uma potenciada e mais racional rentabilização dos recursos humanos, materiais e dos meios financeiros disponíveis.
Apesar de o planeamento estratégico ter um horizonte temporal a quatro anos, tal não impede que ele seja flexível e anualmente se adapte aos novos dados que a todo o momento vão surgindo, de acordo com a imaginação, a criatividade e o sentido de oportunidade dos dirigentes dos clubes.
Há uns anos atrás, numa comunicação feita aos dirigentes da Federação que então dirigia, o Presidente do IDP dizia que em Portugal estavam referenciados 9500 clubes, representando cada um deles cerca de 1000 habitantes, numa altura em que a taxa de hábitos desportivos da população portuguesa se situava à volta dos 27%.
Muitos de nós sabem que no nosso país, a seguir a 1974, e por efeitos da nova vivência democrática, duplicou o número de clubes. Contudo, a partir dos anos noventa, a situação inverteu-se, desaparecendo muitos deles, numa grandeza que atingiu, no interior, os 50%.
Diversas razões contribuíram para isto, salientando – se: o envelhecimento das populações e dos dirigentes desportivos sem a imprescindível renovação das gerações e das mentalidades, e o número considerável daqueles que direccionaram a sua participação cívica para sindicatos e partidos políticos. A partir do ano 2000 esta situação agravou - se, como resultado das condições de vida cada vez mais desmobilizadoras do envolvimento dos associados no destino das suas colectividades.
Em 1998, o Dr. Fernando Seara foi o orador convidado do programa das comemorações do aniversário do Ginásio Figueirense.
No final da sua palestra, e de uma maneira completamente informal, discuti com ele um livro (best-seller) que ambos tínhamos lido, cujo tema eram as macrotendências da sociedade actual, e o qual distinguia, nos movimentos sociais – as modas -, de carácter passageiro, resultado de movimentos do topo para a base -das tendências -, deslocando - se estes da base para o topo, naturalmente muito mais lentos e duradouros do que os anteriores.
Vem isto a propósito, da alteração do conceito de desenvolvimento desportivo a que vimos assistindo, que já não se esgota na capacidade de ganhar medalhas, ter muitos campeões ou atrair milhões de pessoas.
Se recuarmos um pouco no tempo, encontramos no século dezanove, em Inglaterra, o aparecimento do desporto moderno. É aí que, por volta de 1830, o desporto começou a ser encarado como um meio educativo nas escolas e colégios ingleses. A riqueza da tradição do associativismo neste país levou a que, ainda hoje, existam lá mais de 150.000 clubes.
Como consequência do que escrevi atrás, entendo que o desenvolvimento desportivo deverá considerar os benefícios do desporto na vida das populações, de uma região ou de uma localidade e, para isso, o clube tem de basear a sua actividade na qualidade e na diversidade dos seus projectos e na oferta dos seus serviços.
Só assim os sócios poderão estar presentes, com toda a família, nas suas instalações desportivas, e só deste modo a capacidade da oferta se ajustará mais facilmente às necessidades de cada um dos seus membros.
O papel do clube, nos dias de hoje, é ainda o de uma entidade integradora de diferentes grupos sociais (famílias, jovens em idade escolar, idosos, deficientes, militares, trabalhadores de empresas, etc), reforçando laços e partilhando projectos de vida comum.
Por esta razão, mais facilmente se compreende que o clube desportivo deva ter um relacionamento privilegiado com as autarquias locais ( Câmara e Juntas de Freguesia ), integrando-se em projectos da política municipal de desenvolvimento desportivo, e com elas celebrando contratos – programa que obedeçam a planos estratégicos que acompanhem a duração dos mandatos dos autarcas, mas sem nunca pôr em causa a sua autonomia e independência.
Recordo, nesta oportunidade, o Decreto - Lei n º 432/91 de 6 de Novembro, diploma que define o regime aplicável aos contratos - programa celebrados com vista à atribuição de comparticipações financeiras, o qual termina o seu preâmbulo desta maneira: “ Foi ouvida a Associação Nacional dos Municípios Portugueses”.
Antes de concluir, gostaria de felicitar os actuais dirigentes do Ginásio Clube Figueirense por esta iniciativa.
Estou certo que os pioneiros que nos legaram este Clube, bem como todos os dedicados dirigentes que, durante mais de um século, mantiveram e animaram a vida do Ginásio e dos ginasistas, merecem um profundo reconhecimento de todos nós, e a minha participação neste blogue é uma forma de lhes demonstrar a minha admiração e de prestar a todos uma homenagem mais do que merecida.
Parabéns Ginásio!
Fernando Estima
